O rolêzinho é percebido como se vivessemos durante os anos 50 e 60 do século passado quando as dificuldades da questão social eram outras – em teoria mulher não trabalhava fora de casa, cuidava da casa e da edução diária dos filhos. Famílias mais ricas enviavam os meninos para colégios de padre e as freiras formavam as meninas. Em geral, as escolas públicas eram boas. Muito boas. Ensinavam. E o mais interessante é que o país tinha ricos – poucos, classe média – pequena, e uma legião de pobres. O que gerou uma idéia equivocada do que e de quem é classe média.
A diferença sempre se dá pela rejeição, como é o caso dos jovens de periferia, a maneira como a turma do rolê que assola os shoppings é descrita. Bom, do ponto de vista de quem deu esse adjetivo para a moçada, o Tatuapé, onde ocorreu o primeiro deles, também é periferia. O que é um grande equívoco, mais outro. O Tatuapé é um bairro na cidade de São Paulo, que tem todas as classes sociais e é muito bom, como qualquer outro na cidade. Portanto, a descrição adulta sobre os participantes, um pouco mais difícil de ser aceita, é que essa é a classe média brasileira e ela tem algo a dizer. Melhor ouvir.
Nina Horta, a chef espiritual desse país, na sua coluna do caderno Comida da Folha de S. Paulo dessa semana chama a atenção para aquilo que deveria ser o óbvio, a população tem que saber ler, entender o que está escrito; tem também que saber fazer contas e desempenhar. E, isso digo eu, essa coisa de que não se tem opção de lazer deveria deixar qualquer brasileiro de cabelo em pé. Desde quando fazer compras é lazer?
O Rio de Janeiro para poder sobreviver de turismo criou um apartheid entre Zona Sul e Zona Norte/subúrbios que persiste até hoje. A fantasia era que as favelas seriam desalojadas pelo poder público e que os terrenos seriam vendidos com grande lucro. Meu pai, um engenheiro que estudava filosofia e começou sua vida como aluno do Colégio Pedro II e da Escola Politécnica, dizia que isso era coisa de débil mental. E era mesmo, se o poder público tivesse se comportado, instalado bairro com água luz esgoto sem colocar fogo nos barracos para expulsar seus moradores talvez hoje, não seria preciso UPPs e a classe média do rolêzinho não seria ‘de periferia’. E teríamos outro tipo de problema ou de movimentação política. Mas, em shopping center?
Leia a coluna da Nina Horta no caderno Comida da Folha de S. Paulo
O fato é que a separação entre quem é bem e quem não é espalhou-se pelo país e assim criou-se uma segregação nacional. Esses jovens são de classe média – a nova classe média como foram descritos nos últimos dez anos; ou será que são de periferia? Pronto, criou-se a categoria classe média de periferia. Confuso, pelo menos para mim. E muito exagerado.
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