Tenho a mania de perseguir uma mesma receita em diferentes livros e cadernos, desde os mais velhos, antigos mesmo, até aquelas que encontro na internet. Vira e mexe, é verdade que com pouca frequência, dou uma sorte, e encontro algo que me explica na prática o nome de uma receita.
Aconteceu comigo com as brevidades. Para quem não conhece, brevidades são bolinhos individuais preparados com polvilho de mandioca no lugar de farinha. Também já foram preparados com fécula de araruta – mas essa praticamente desapareceu dos mercados. O bolinho é meio seco quando comprado nas padarias, porém é muito macio quando feito em casa. E, como muitas receitas daqueles tempos utiliza um número grande de gemas.
Quanto ao seu nome, eu não tenho muita certeza se a origem do nome brevidade surgiu porque a receita tem um número pequeno de ingredientes. Outra possibilidade para o tempo relaciona-se ao seu tempo no forno, uma vez que o polvilho assa mais rapidamente do que a farinha de trigo. Essa possibilidade, no entanto, me parece menos provaável, uma vez que brevitas em latim quer dizer em português abreviado, conciso, e brevidade.
O Doceiro Nacional, um livro de século XIX, tem várias receitas de bolos abreviados – de Minas, à moda de São Paulo, de Goiás e de arroz. Abreviados, brevidades, breves bolos. A receita é a mesma que usamos hoje. Infelizmente os livros não comentam nem a sua origem, nem a de seu nome. É um bolinho gostoso para servir nas festas de São João, combinam com quentão e fogueira.
Transcrevi uma receita antiga do Doceiro Nacional, para quem quiser experimentar. Reparem como ela é fácil de fazer, com poucos ingredientes, mesmo em grande volume.
Mistura-se uma dúzia de gemas e sete claras de ovos com uma libra – 454 g – de polvilho doce, com uma libra de açúcar, duas xícaras de nata de leite, ou na falta desta uma xícara de leite misturada com duas colheres de sopa de manteiga em temperatura ambiente, um pouco – meia colher de chá de sementes de erva doce. Amassa-se bem e distribui-se em forminhas individuais untadas e assa-se em forno quente.
A imagem da festa de São João que ilustra esse texto é da pintora Djanira da Motta e Silva (1914 – 1979), seu trabalho retratava com riqueza de detalhes o dia-a-dia e as festas do nosso povo. São João é a maior festa popular do país, deixando-se o Carnaval um pouco de lado, sempre atrai adultos e crianças com suas brincadeiras, cantigas e comidas típicas. É uma festa de boas lembranças e por isso foi retratada por quase todos os grandes pintores brasileiros, Di Cavalcanti, Heitor dos Prazeres, além do Alfredo Volpi que transformou as bandeirinhas que enfeitam os quintais e as ruas em uma abstração em sua obra.
Clique aqui para saber mais sobre a Djanira.
Crédito da imagem: Festa de São João / Divulgação
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