A mandioca e o cacau são os únicos produtos que os colonizadores e/ou invasores das Américas encontraram prontos para serem consumidos. Mas, não vou falar sobre o cacau dessa vez. Como a história é muito boa, vou guardá-la para uma outra ocasião. Tanto a mandioca quanto o cacau eram conhecidos e extensamente explorados pelos habitantes locais já no século XVI. E, ao contrário dos tomates, que são originalmente peruanos, e eram venenosos. Só depois de muitos enxertos e aprimoramentos eles chegaram ao sabor e aparência atuais. Aconteceu a mesma coisa com as batatas. Quantos de nós não já ouviram que temos que arrancar os “olhinhos” das batatas antes de cozinhá-las para não ter dor de barriga? Elas, como a mandioca tem um veneno que as protege na natureza do ataque de pragas. É é por isso que não se deve comer a batata crua.
Os espanhóis quando chegaram na America Central em 1492 já encontraram o cacaueiro não apenas bem conhecido, mas com seus frutos processados como uma bebida. Era consumido com um pouco de pimenta e farinha de milho, o que pelas descrições faz lembrar um mingau. No entanto, o cacau é uma planta da floresta Amazônica que migrou para a América Central.
O caso da mandioca
A mandioca já era consumida no Brasil pré-colonial, e primeiros portugueses que chegavam por aqui ficavam encantados com a elegância com que os povos locais jogavam, com apenas dois dedos, uma porção inteira de farinha na boca. E tudo, sem perder um só grão. E era mesmo de se admirar, principalmente por quem comia só com a faca – o garfo só chegou às mesas europeias no final do século XVII, e mesmo assim só para gente muito rica. A faca e a colher eram os talheres usuais até a segunda metade do século XIX na Europa. Comia-se portanto com a faca e com os dedos.
A mandioca é no entanto uma raiz venenosa, e cada tipo tem maior ou menor quantidade de ácido cianídrico. Os povos originários do país já conheciam diferentes técnicas de plantio, além de variantes da planta. E, com elas, depois de tratadas, prepararam não só a farinha, mas também biscoitos secos. Da goma que sobrava da água da lavagem das raízes preparavam caldinhos para serem comidos com peixes.
A difusão da mandioca
Primeiro ela se difundiu entre os colonizadores no período de conquista do território, quando os bandeirantes plantavam feijão e mandioca no seu caminho para o interior. Assim, era consumida pelas expedições no caminho de volta. Ou ainda as próximas expedições de conquista de terras e de escravização dos povos locais teriam o que comer. Mais tarde foi incorporada em diferentes pratos regionais criados pelos novos habitantes do país. Primeiro os portugueses, em seguida pelos africanos escravizados. Aproveitaram também a fécula para fazer cremes e pudins. Quase um século depois com as invasões holandesas no Nordeste, durante o século XVII, juntaram o leite de coco à essa mistura de leite e fécula.
A exportação de alimentos e de pessoas escravizadas
É importante observar que a mandioca não passou a ser plantada em larga escala porque as populações colonias se adaptaram aos produtos locais. O interesse colonial visava o negócio internacional, e por isso a mandioca foi logo exportada. E, ela foi introduzida na África no mesma perído inicial da colonização do Brasil. Era parte de uma política de troca triangular de alimentos entre a África, com pessoas escravizadas, Portugal – com capital e produtos do Oriente – pimenta, cravos etc, e o Brazil com produtos agrícolas – o açúcar, e mais alguns outros.
A pintura que ilustra esse artigo é do Albert Eckhout, um artista holandês que veio ao Brasil durante a invasão holandesa no século XVII.
Albert Eckhout, Public domain, via Wikimedia Commons